O homem da cobra

julho 12, 2017

Eu tenho o hábito de falar sozinha. Acredito que muita gente que é introvertido dá dessas. E eu crio cenários e enredos de conversações incríveis que jamais vou ter. Hoje, por exemplo, estava dirigindo meu carrinho, pensando na vida, quando comecei a falar com uma pessoa imaginária sobre as várias fases da minha timidez aguda. 

-- Há cinco anos não estaríamos tendo essa conversa - disse eu, ao assento vazio do lado do carona. - Eu era tão tímida que não conseguia falar com ninguém. E meti na minha cabeça que queria ser jornalista. Quando estava na faculdade, para apresentar trabalhos era só por Deus: falar eu até falava, mas gaguejava, ai me sentia péssima e ficava com mais vergonha pensando que aquelas pessoas todas me olhando estavam me achando ridícula - esse sentimento, é claro, sempre confirmado pelos sorrisinhos maliciosos que eu pescava em meio a minha visão que chegava a ficar turva até. 

-- Mas você até que fala bastante - respondeu o assento.

Em meio há alguns xingamentos voltados a um motoqueiro que resolveu passar pela direita quando não deveria, continuei:

-- Sim, hoje já consigo falar melhor com as pessoas. Fui "quebrando" meus medos. Principalmente meu receio de falar alguma merda. Por isso que na faculdade, na verdade durante toda minha vida escolar, eu precisava saber tudo cem por cento para ter certeza de que não ia soltar nenhuma abobrinha. E no fim não falava é nada porque eu suava tão frio para interagir com qualquer pessoa que a voz chegava a me faltar.

Depois de uma freada um tanto brusca atrás de um ônibus que estava parado na curva, bem longe do ponto (e não havia nenhum passageiro subindo ou descendo), fiz uma pausa dramática, daquelas em que você abre um sorriso misterioso, dá de ombros e volta a falar como se tivesse todos os segredos do mundo escondidos dentro de você.

-- Foi muito difícil chegar até aqui. Foram muitos dias me sentindo, por falta de palavra melhor, humilhada. As pessoas realmente não entendem o poder que tem uma simples palavra de mal gosto. Só quem é introvertido, tímido e sofre ou já sofreu com depressão e ansiedade pode entender minimamente como é a vida de uma pessoa assim. Imagine, então, ser e ter tudo isso ao mesmo tempo. Isso sim é conhecer o inferno; quem enfrenta isso, meu amigo, é capaz de enfrentar qualquer outra coisa.

-- É, imagino que sim - pontuou novamente meu interlocutor imaginário.

-- Mas vou ficar um pouco quieta porque devo estar te entediando com todo esse papo. Ainda sou muito tímida, mas é só me dar cinco minutos de conversa que eu não paro de falar. Como é mesmo aquele ditado popular? Fala mais do que o homem da cobra? Essa frase nunca fez muito sentido para mim porque 1) quem é o homem da cobra? e 2) por que ele fala tanto? Enfim, suponho que eu fale mesmo mais do que o tal homem da cobra quando me dão a oportunidade.

Chego na rua de casa e tenho que desviar de um carro que vem pela contramão. Perco o fio da meada da minha conversa imaginária e é o fim. 

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